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Heidegger e o Nacional-Socialismo

Teria ou não o filósofo sido fiel ao III Reich?

 

A certa hora do dia, eu recebia a visita do camarada Nogaret. Pelas últimas semanas, eu havia lido atentamente a entrevista que Heidegger cedeu à revista Der Spiegel. Seu conteúdo me incomodava sob alguns aspectos. Não parecia ter encontrado nas palavras do filósofo, a fidelidade que deveria.

“Você chegou a ler a entrevista?”, perguntei ao amigo, “e se sim, o que achou?”. “Não a li, mas tomei conhecimento de uma carta de Heidegger enviada a Habermas, e devo dizer que não foi do meu agrado”. Segundo suas palavras, o abandono da função enquanto Reitor, que lhe fora oferecido pelo III Reich, teria sido já uma profunda demonstração de sua oposição ao Nacional Socialismo.

“Não gostei da entrevista para a Der Spiegel, mas procurei ser compreensivo”, eu dizia. “Não se menciona que tipo de cartazes seriam os referidos por Heidegger, que membros da SA desejavam colar em sua unidade. Quem sabe fossem grosseiros. Não sei. De qualquer forma, Heidegger afirma que jamais teria dito novamente que apenas o Führer constitui a unidade alemã. Não entendo. Miguel Serrano (1) dedicou seu último livro a Heidegger, por conta de sua fidelidade”, “Entre os erros de Serrano, quem sabe um tenha sido esse”. E Nogaret seguia: “Independente disso, Zelkjo Lopanic em "Heidegger réu" (2), afirma que nenhuma retratação de Heidegger teria sido o suficiente, porque sua Filosofia por si só era completamente nacional-socialista. Parece-me evidente. Por isso, diante de tudo, Heidegger simplesmente se calou” (3).

E contou-me um caso de outro filósofo judeu, Levinas, que teria estudado apenas com rabinos. Era admirador de Spinoza e chegou a requisitar ao rabinato para que este concedesse perdão ao filósofo hispano-judeu. Como resposta, soubera que era impossível, porque Spinoza cometera um pecado mortal perante a ortodoxia judaica: desejou interpretar a Torá e o Talmud à luz do Novo Testamento. “E, pois bem”, seguia Nogaret, “Levinas dizia que a menos que Heidegger negasse por completo sua obra, qualquer retratação seria nula, pois sua Filosofia estava em convergência absoluta com os princípios do Nacional-Socialismo”.

Na interpretação de alguns, Heidegger teria atuado sob pressão para criticar o Nacional Socialismo no pós-guerra.

Na entrevista acima referida, diz o filósofo que sua participação no campo da política teria sido apenas enquanto reitor. Enxergava o Reich como um possível motivador das universidades, o que abriria, por sua vez, mais campos a novas perspectivas por parte dos estudantes. Admitiu que não sabia exercer a função de reitor que lhe fora ofertada. Não enxergava mesmo outra alternativa que solucionasse a questão da auto-afirmação universitária em solo alemão.

Em certa passagem, vemos claramente a forma com que Heidegger declarou sua oposição ao Nacional Socialismo:

“Der Spiegel: A sua relação com o Partido Nacional-Socialista altera-se depois de ter renunciado a ser reitor?
Heidegger: Depois de deixar o reitorado, limitei-me à minha atividade docente. No semestre do verão de 1934, lecionei Lógica. No semestre seguinte (1934/1935), dei o primeiro curso sobre Hölderlin. Todos os que sabiam ouvir, compreenderam que se tratava de um enfrentamento com o Nacional-Socialismo” (4).

Se por um lado temos tal declaração, por outro, no entanto, não poderíamos ignorar dois exemplos aqui escolhidos entre outros milhares – estes, quem sabe, até mesmo mais diretos: o discurso de Heidegger quando se assume enquanto Reitor da Universidade de Freiburg, e uma carta a Victor Schwoerer, de 1929.

Em seu discurso, Heidegger ressalta que a escolha que o povo alemão fez por Hitler trazia a possibilidade de reviver seu próprio Dasein. ”Para o povo, nada é mais importante que o seu próprio futuro”. A vontade de auto-determinação também era vista como um fundamento do Estado Nacional-Socialista. Através desse governo, o alemão voltaria a existir enquanto povo. O que da Alemanha emanava, era como a mais alta resposta às imposições do sistema vigente.

A revolução nacional-socialista foi enxergada, acima de tudo, como uma significativa mudança de perspectiva do ser alemão. E certo, Heidegger dava fim ao discurso, afirmando esperançosamente que ninguém seria capaz de se opor ao despertar do III Reich: “Dieser Willen hat der Führer im ganzen Volke zu vollen Erwachen gebracht und zu einem einzigen Entschuss zusammengeschweisst. Keiner kann fernbleiben am Tage der Bekundung dieses Willens. Heil Hitler!“ (5).

E na carta a Schwoerer, Heidegger afirma que a vida espiritual alemã estava em um momento crucial: ou se impulsionava, ou seria de vez contaminada pela influência judaica. Afirma que os alemães apenas poderiam retomar ao seu solo se fosse possível prosperar diante do quadro em que se vivia. E observou, pura e claramente: “Desfruto neste instante os mais lindos dias possíveis em nossa terra, e me é um grande prazer perceber, de quando em quando, que o meu trabalho está profundamente enraizado em meu solo pátrio” (6).

Fora fiel ou não fora? Talvez nunca o saibamos.

De qualquer maneira, ainda que não tenhamos uma conclusão sobre o caso, a Filosofia de Heidegger não apenas não é bem vista pelo sionismo, que para com ele não teve piedade, como nos é essencial.

Heidegger foi crítico do marxismo. Acreditava que a Filosofia era a verdadeira voz da Europa. Criticou a expansão tecnológica que, por sua vez, retirava o homem das leis naturais. E achava que um país precisava ser orientado por três figuras principais: um filósofo, um poeta e um político, que, segundo sua própria concepção, estavam expressos através dos seguintes nomes: Heidegger enquanto filósofo; Hölderlin enquanto poeta; e finalmente, Hitler enquanto político.

 

 

(1) Assim Miguel Serrano escreveu em seu "Maya - a realidade é uma ilusão": "Dedico este livro a Adolf Hitler, o Último Avatar, e a Martin Heidegger, grande alemão, que foi leal até o fim de seus dias".
(2) LOPANIC, Zelkjo. Heidegger réu: um ensaio sobre a periculosidade da Filosofia. Editora Papirus. 1990.
(3) POLACCO DE MENASCE, Roger Dommergue. Auschwitz e o silêncio de Heidegger. Editora Revisão. Porto Alegre, 1993.
(4) Revista DER SPIEGEL. Edição 23. 1976. Entrevista com Heidegger sob o título de "Nur noch ein Gott kann uns retten", na pg. 193.
(5) Publicado originalmente sob o seguinte endereço:
http://radioislam.org/hitler/heidegger.htm#4
(6) Publicado originalmente sob o seguinte endereço:
http://national-socialist-worldview.blogspot.com/2010/04/martin-heidegger-on-jewish.html